8. ARTES E ESPETCULOS 17.10.12

1. LIVROS  MARAVILHAS BRUTAS
2. TELEVISO   DIFCIL ENCONTRAR UM HOMEM BOM
3. CINEMA  DA VIDA DAS MARIONETES
4. ARTE   DURO NO BABAR POR DRER
5. VEJA RECOMENDA
6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
7. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO   SUSTENTVEL?

1. LIVROS  MARAVILHAS BRUTAS
Uma nova e cuidadosa edio dos contos coligidos pelos irmos Grimm revela um universo estranho e encantador  mas nem sempre infantil.
JERNIMO TEIXEIRA

	A gata Borralheira perde seu sapato (que no  de cristal, mas dourado) no apenas por deixar o baile esbaforida ao badalar a meia-noite: acontece que o prncipe, que j a conhecera de um baile anterior, manda colocar piche nos degraus da escadaria, para retardar sua fuga. Esse pequeno detalhe representa bem uma caracterstica marcante dos contos  de fadas coletados pelos irmos Grimm: com muita frequncia, eles parecem mais sujos do que as verses hoje mais correntes dessas histrias, quase sempre diludas e higienizadas no cinema ou em adaptaes para livros infantis.
     O nome Grimm est indissociavelmente associado ao conto de fadas (ou conto maravilhoso, para seguir mais de perto o termo alemo Mrchen).  a marca, a grife mais conhecida do gnero. No entanto, o contato direto com as histrias tantas vezes cruis que Jacob (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786- 1859) colecionaram pode ser desconcertante. Vale para eles uma das magistrais definies de clssico do escritor italiano Italo Calvino: Clssicos so livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando so lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inditos. A esses trs adjetivos, pode-se acrescentar chocante para definir com mais preciso Contos Maravilhosos Infantis e Domsticos (1812-1815) (traduo de Christine Rhrig; CosacNaify; 672 pginas em dois tomos; 99 reais).
     Essa edio traz, acomodadas em uma simptica caixa e com ilustraes do pernambucano J. Borges  que busca fazer uma ponte entre o conto popular germnico e o cordel brasileiro , as duas primeiras coletneas dos Grimm. Os dois manos apresentaram 86 contos, coletados da tradio oral da regio alem do Hesse, em um volume lanado em 1812, e mais setenta em um livro de 1815. A iniciativa filiava-se ao esprito nacionalista do romantismo alemo, tanto mais exaltado porque a Alemanha ainda no existia como nao. A busca das razes populares da germanidade estava em voga. Os poetas Achim von Arnim e Clemens Brentano j haviam publicado uma coletnea de versos de extrao popular. Des Knaben Wunderhorn (algo como a trompa mgica do menino), quando os Grimm deram incio a suas pesquisas. Os irmos patrioteiros reivindicaram origem alem para histrias conhecidas tambm em outros pases europeus  como Chapeuzinho Vermelho, registrada pelo francs Charles Perrault bem antes, no sculo XVII.
     Sob o cuidado exclusivo de Wilhelm, as edies seguintes somariam mais de 200 contos. As histrias, porm, ganhariam verses amaciadas, em resposta queles que as consideravam imprprias para crianas. Na Rapunzel de 1812, por exemplo, a fada m que tranca a herona na torre descobre que um prncipe vem visitando sua prisioneira quando Rapunzel menciona casualmente que seus vestidos andam apertados  indcio de uma gravidez. Nas edies posteriores, Rapunzel, a tonta, deixa escapar que vem puxando, com seus cabelos, o prncipe para o alto da torre. H outras sugestes sexuais ao longo dessas narrativas  que, como bem percebeu o psiclogo austraco Bruno Bettelheim, so campo frtil para a investigao psicanaltica. O modo como a princesa oprimida do belo A Pastora de Gansos solta e ajeita seus cabelos sem jamais permitir que o companheiro de trabalho Conradinho toque neles  um evidente jogo ertico. E, nas duas verses da histria da princesa e do sapo, a princesa hesita na hora de levar o batrquio encantado para a cama.
     A brutalidade, porm, perturba mais do que o sexo. Esses contos so um desfile de perversidades: crianas famintas, mutilaes variadas, torturas e execues elaboradssimas. Em alguns casos, desvenda-se um fio de inteno edificante nessas bizarrias: o heri ou herona passa por provaes horrorosas para melhor provar sua tmpera moral  e os malvados acabam punidos.  assim no bem conhecido Joo e Maria, que acaba com a bruxa m assada em seu prprio forno. Mas h histrias nas quais a violncia  de uma gratuidade que parece amoral. Tal  o caso de A Mo com a Faca, em que um pobre elfo tem seu brao amputado por ajudar uma menina maltratada pela famlia, ou de Quando Crianas Brincaram de Aougueiro, cujo ttulo j diz tudo. As histrias de princesa que hoje so conhecidas sobretudo pelas edulcoradas animaes de Walt Disney (veja o quadro na pg. ao lado) so, na pena dos Grimm, incomparavelmente mais sujas e brutas. Nas notas sombrias, alis, os Grimm superam com folga as tentativas recentes de modernizar suas narrativas  como a chatssima srie de TV Grimm ou o desastrado filme Branca de Neve e o Caador.
     A profuso de membros decepados e delicadezas similares talvez tenha o sentido de educar as crianas para as realidades mais duras da vida, funo que alguns psiclogos tambm descobrem nas brincadeiras mais agressivas dos meninos (leia a reportagem na pg. 100). Mas ateno: no  apenas o nosso tempo de hipersensibilidade histrica que tem os Grimm como incorretos. Os contemporneos da dupla de folcloristas j consideravam suas histrias maravilhosas imprprias para menores   o que se atesta no prefcio um tanto defensivo que os dois escrevem para a edio de 1815.
     Estes livros so obrigatrios para todo pai que deseja formar filhos leitores. Mas  preciso critrio e parcimnia para apresent-los aos pequenos; recomenda-se que os pais leiam cada histria para si antes de cont-la a seus pimpolhos na hora de dormir. Existem aqui imenso prazer para os leitores adultos e encantamento inesgotvel para as crianas. Os Grimm professavam uma filosofia de fidelidade s fontes orais, e por isso no se permitiam grandes firulas de estilo. Mas h uma poesia irresistvel no modo como descrevem, por exemplo, o reino sonolento em A Bela Adormecida: At o fogo, que crepitava no fogo, ficou em silncio e adormeceu. E que dizer de A Chave Dourada, ltima histria da edio de 1815? Simples, eficiente,  uma aula de como encadear uma narrativa: uma ao depois da outra, at a ltima frase que deixa o leitor em suspenso,  espera de um final que no vir  porque histrias assim so infindveis. 

OS ANTI-DISNEY
Na verso dos irmos Grimm, as histrias de princesas comportam bizarrices que no se veem nos desenhos animados.

BELA ADORMECIDA
A histria da princesa que cai em um sono encantado  das mais suaves do repertrio coletado pelos Grimm. A verso Disney, decerto por economia cnica, cortou o elenco de fadas de treze, nmero aziago, para apenas quatro  trs boazinhas e uma malvada. Ah, sim: o esquisito caranguejo que salta da banheira da rainha para profetizar o nascimento da princesa tampouco aparece no filme.

CINDERELA
No conto dos Grimm, ela  apenas a Gata Borralheira  o nome Cinderela  de uma verso anterior, do francs Charles Perrault (responsvel tambm pelo sapatinho de vidro, que os irmos alemes registram como dourado). Mas a diferena mais expressiva em relao ao filme Disney est na estratgia das duas irms malvadas para calar o sapato muito pequeno: elas mutilam os ps a faca.

BRANCA DE NEVE
O prncipe do conto original parece ter uma fixao necroflica pelo cadver da herona. No entanto, ao contrrio do que acontece no filme, no  seu beijo de amor que ressuscita a jovem: um criado d-lhe um tapa nas costas e desaloja da sua garganta o pedao de ma envenenada. E a rainha m que a envenenou  obrigada a danar at morrer  com sapatos de ferro incandescidos no fogo.


2. TELEVISO   DIFCIL ENCONTRAR UM HOMEM BOM
O que explica a popularidade do ex-jogador Tufo, o marido trado e bovinamente passivo da novela Avenida Brasil  que virou, quem diria, esteio moral da nao.
MARCELO MARTHE

Me conta uma histria para eu no te matar, sua vadia. Repetindo a frase com o semblante fechado de um touro doido para cravar os cornos na mulher que o ludibriou, o ex-jogador Tufo  personagem do ator Murilo Bencio na novela Avenida Brasil  enfim reagiu. No captulo de segunda-feira passada, a apenas duas semanas do final da trama das 9 da Globo, ele revidou todas as bolas pelas costas que levou da mulher, a vil Carminha (Adriana Esteves). Conforme o Brasil inteiro se cansou de saber ao longo de quase 170 captulos, Carminha manteve por doze anos um affair com seu amante e cmplice Max (Marcello Novaes) debaixo do teto da manso de Tufo. Nesse meio-tempo, fez o ex-craque assumir a paternidade dos dois filhos que teve com Max. Armou o prprio sequestro para extorquir dinheiro do marido. Alm de,  claro, esconder dele sua profisso de fato  ela era prostituta. Sempre que cacos dessas verdades ameaavam vir  luz, Carminha inventava uma desculpa esfarrapada, fazia cara de santa e Tufo acreditava. A manso s desabou por obra do prprio Max, que deixou de presente para a famlia as fotos em que surgia aos amassos com Carminha. No momento em que Tufo finalmente abriu os olhos, a comoo foi estrondosa: a novela bateu seu recorde de audincia at agora, atingindo 49 pontos na Grande So Paulo. Foi o programa mais visto da TV brasileira neste ano  mais at que o jogo em que o Corinthians conquistou a Taa Libertadores da Amrica, em julho. Eis um atestado da popularidade de um heri incomum: o homem trado, passivo e bovinamente crdulo  mas que, com sua mansido e honestidade, se imps como uma espcie de esteio moral da nao. Assim como os chifres dos alces e outros bichos, a galhada de Tufo demonstrou ser um adorno valioso na guerra darwinista pelo ibope.
Por demorar tanto a descobrir as coisas, o Tufo tinha tudo para ser um sujeito irritante. No foi uma pea simples de ajustar dentro da trama, diz o noveleiro Joo Emanuel Carneiro. Mas o autor recorreu a uma boa fonte: buscou na literatura o pai de todos os Tufes. Trata-se do prncipe Michkin, protagonista do romance O Idiota, do russo Fiodor Dostoievski (1821-1881). A semelhana entre os personagens, alis, foi escancarada em uma daquelas indiretas absolutamente diretas dadas pela herona Nina/Rita (Dbora Falabella) por meio de suas sugestes de leitura ao patro. O personagem  um jovem dotado de uma bondade sem tamanho. Revela-se to superior em sua pureza que as pessoas corrompidas e pavorosas que o cercam o julgam um desajustado.
     Ao transportar O Idiota para o subrbio do Divino, Carneiro criou  Carminha que no nos oua  o personagem que resume o esprito da novela. Ele no tem as atitudes de um heri. Carece de iniciativa e fica a reboque dos outros, afirma o autor. Ele usou certos truques para evitar que Tufo no fosse visto como um paspalho pela audincia. O personagem exercita o que o noveleiro chama de amor de renncia: ama mais a famlia que a si prprio. Essa coisa toca demais a alma do brasileiro, diz. Bem ou mal, Tufo tambm nunca deixou de buscar a verdade. Por fim, um dado essencial: apesar de ele levar um golpe de Carminha, sua vida de alcova com a vil, at onde se saiba, era satisfatria. Ser enganado, tudo bem. Mas, se ele no fosse para a cama com ningum, o espectador iria ach-lo um completo banana, diz Carneiro. Amor de verdade, no entanto, Tufo s iria fazer neste fim de semana, ao deitar e rolar com sua antiga amada, a cabeleireira Monalisa (Helosa Periss). Por fim, como ensina a psicologia evolutiva, a fantasia das mulheres  atiada pela grandeza de Tufo em assumir a prole alheia.
 bvio que Murilo Bencio teve parte fundamental em conferir credibilidade a esse homem bom to difcil de encontrar nas novelas. O ator fluminense de 41 anos emprestou a Tufo tiques que, aparentemente, comunga com ele  como o hbito de coar a nuca. Em uma entrevista, Bencio j contou que aquele jeito de olhar por baixo foi surripiado de um personagem vivido no cinema pelo americano Robert De Niro. Com seu abdmen meio fora de forma, o ator dota Tufo, ainda, de uma semelhana providencial com os heterossexuais de verdade disponveis no mercado  e, como sabe qualquer mulher que j tenha vivido um bocadinho a vida, muito mais vale uma barriga afetuosa que um tanquinho indiferente.
     Para tentar manter segredo sobre o final de Avenida Brasil, no dia 19, Carneiro preparou cinco verses do desfecho  apenas uma, claro,  a que vale. No se sabe o que vai ser de Carminha. S posso adiantar que ela ter um fim nada convencional, diz. Ele declara, contudo, que em dado momento Carminha vai implorar para ter Tufo de volta. Em vo. Ele pode ser um macho meio bovino. Mas no  nenhum burro. 


3. CINEMA  DA VIDA DAS MARIONETES
Em Moonrise Kingdom, o diretor Wes Anderson radicaliza seu formalismo e seus maneirismos para, inesperadamente, libertar a si e aos seus personagens.
ISABELA BOSCOV

     Usando aqueles seus planos preciosos, que correm em perfeitas paralelas ou perpendiculares em relao  cena, o diretor Wes Anderson mostra no incio de Moonrise Kingdom (Estados Unidos, 2012), desde sexta-feira em cartaz no pas, outro dos meticulosos dioramas em que costuma confinar seus personagens: a casa dos Bishop na ilha de New Penzance, to grande que a me (Frances McDormand) toma de um megafone quando tem de chamar o marido (Bill Murray) ou os filhos e to cheia de detalhes vvidos, da vitrolinha dos garotos ao tecido encorpado do vestido da menina Suzy (Kara Hayward), que desde o primeiro instante o espectador se sente como se tambm ele fosse agora uma pea dessa casa de bonecas.
     Suzy, de 12 anos,  o detalhe que destoa: com um par de binculos colado aos olhos, ela aparece nas portas, nas janelas, no telhado, sempre olhando para fora  para o mundo. Suzy se sente incompreendida pela famlia e apartada dela, e  infeliz. E logo se vai saber que  com ela que est Sam (Jared Gilman), escoteiro fugido do acampamento regido pelo comandante Ward (Edward Norton). Sam tem tambm ele 12 anos e , como Suzy, um corpo estranho em seu pequeno universo:  rfo e os colegas o hostilizam. Um ano antes desse fatdico setembro de 1965, Suzy e Sam se conheceram em um evento escolar e, como mostra Anderson em um flashback de estupenda fora narrativa, reconheceram-se como almas gmeas e planejaram escapar. Antes mesmo que Ward e o policial Sharp (Bruce Willis) se deem conta de que ocorreu uma fuga, Suzy e Sam j se esto encontrando. Ele comparece com sacos de dormir, vveres e seu conhecimento da vida selvagem. Ela traz a vitrolinha, um compacto de Franoise Hardy, um gato numa cesta e vrios livros. No percurso at uma pequena baa onde pretendem se refugiar (e que batizam de Moonrise Kingdom, ou reino do nascer da Lua), as duas crianas ensaiam uma singela iniciao amorosa e estabelecem uma tocante rotina em comum. Sua fuga s pode ser breve e simblica, porque eles esto numa ilha. Mas sua determinao de constituir-se em uma famlia que faa jus  promessa dessa palavra  genuna, absoluta e ferrenha. Os adultos de Moonrise Kingdom so tristes, insatisfeitos, infantis, ss mesmo quando tm companhia e ignorantes de si prprios. So as crianas, sofridas mas ainda no entorpecidas, que tm os olhos abertos.
     Desde que Anderson se lanou, no fim dos anos 90, sua combinao de preciosismo e sinceridade foi primeiro enaltecida (com toda a razo) em filmes como Trs  Demais e Os Excntricos Tenenbaums, e depois demolida (tambm com razo) em A Vida Marinha com Steve Zissou. H trs anos, porm, Anderson ressurgiu com um experimento radical: uma animao em stop-motion, para adultos, adaptada do conto infantil O Fantstico Sr. Raposo, de Roald Dahl. Aprofundou nessa iniciativa tanto seu formalismo visual e seus maneirismos narrativos quanto a sinceridade de sentimentos que o move  em um recurso de impacto extraordinrio, ele tratava os bonecos como atores, focalizando-os em close-ups de expressividade alarmantemente humana.
     Moonrise Kingdom herda esse atributo, mas com sinal invertido: os atores, aqui, agem como marionetes num teatrinho. E, no entanto, o resultado  libertador, para o criador e para os personagens. A emoo que j palpitava em Trs  Demais ou Tenenbaums, e transbordava em Sr. Raposo, aqui reverbera e ressoa, e  levada com fora crescente de uma cena para outra. O triste policial que, usado como amante eventual pela me de Suzy, encontra a realizao onde menos esperava; o chefe dos escoteiros que, de arremedo de criana, se metamorfoseia no adulto que no sabia ser; os dois enamorados que, no momento decisivo, encontram a coragem de que precisam: todos os entrechos de Moonrise Kingdom convergem e culminam durante uma tempestade que pe a todos em perigo mortal ao fustigar a ilha de New Penzance (uma das muitas referncias afetivas do diretor, esta  pera cmica Os Piratas de Penzance, de Gilbert & Suilivan), mas ao cabo da qual o amor, em todas as suas formas, vai triunfar. A comear pelo amor pleno e cada vez mais repleto de autoconhecimento de Wes Anderson pela arte que ele cunhou, na qual a certa altura se perdeu e em que agora se reencontra de forma arrebatadora.


4. ARTE   DURO NO BABAR POR DRER
O mestre que inventou a gravura moderna  figura central de uma bela mostra sobre o Renascimento alemo. S com preto e branco, ele era capaz de expressar tudo.
MARCELO MARTHE

     No incio do sculo XVI, o alemo Albrecht Drer (1471-1528) empreendeu uma viagem a Veneza com propsitos bem objetivos. Na Itlia renascentista, ele pretendia embeber-se da atmosfera florescente das artes. Ao mesmo tempo, queria fugir de uma epidemia que assolava sua Nuremberg de origem. Mas a razo maior da viagem era de cunho comercial. Como informou o contemporneo Giorgio Vasan num apndice de Vidas dos Artistas, tratado clebre sobre os pintores italianos do perodo, Drer foi a Veneza para mover um processo contra um embusteiro que vendia gravuras forjando sua assinatura. quela altura rico e afamado em toda a Europa, Drer era o equivalente alemo do italiano Leonardo da Vinci: um artista cosmopolita capaz de dar vazo a seu talento em campos diversos. Ia da pintura  arquitetara, passando pelo interesse por botnica e zoologia. Imprimiu um toque de gnio, sobretudo,  gravura. Consagrado graas a esses trabalhos, que eram reproduzidos em srie para rodar o mundo, Drer acabou sendo precursor tambm em outra seara. Como atesta o processo veneziano, ele foi o primeiro grande artista a exigir o devido respeito ao copyright  os direitos autorais. No  fortuito que onze obras suas sejam o centro de uma bela mostra de sessenta gravuras do Renascimento alemo que entrar em cartaz no Masp, em So Paulo, na sexta-feira 19.
     A popularidade das gravuras de Drer na Itlia de Leonardo e Rafael (com quem, alis, ele chegou a trocar trabalhos) evidencia: nessa modalidade, nada superava o virtuosismo do alemo. A arte da impresso de imagens se divide entre antes e depois dele. Drer inventou as artes grficas em seu formato moderno, diz Pascal Torres, especialista do Museu do Louvre, de onde vm as obras da mostra Luzes do Norte. O jeito para a coisa no nasceu do nada. As cidades da regio que s em 1871 seria unificada como Alemanha eram prdigas em gravadores. A tradio se iniciou com mestres annimos no fim da Idade Mdia. Aos poucos, sob influncia do que ocorria na Itlia, eles foram incorporando a harmonia e a vivacidade tpicas do Renascimento. Mas a herana medieval continuaria a demarcar as peculiaridades alems do perodo. Eles tinham um p nas inovaes de ento  e o outro fincado na arte gtica do norte da Europa. Dessa mescla, artistas como o chamado Mestre Mz, que atuou em Munique por volta de 1500, extraem resultados que antecipam a modernidade. Seu So Cristvo faz lembrar uma cena de filme expressionista alemo dos anos 20: o santo que carrega o Menino Jesus nos ombros  um gigante monstruoso, e as dobras esvoaantes de sua capa e saiote conferem uma atmosfera sombria  cena. O refinamento grfico assoma tambm nas gravuras de outro mestre do fim do sculo XV. Johannes von Kln, ou Joo de Colnia, produziu um So Jorge que flutua no ar em seu cavalo enquanto desfere a lana contra o drago. J o amontoado de figuras de A Priso de Cristo transmite vertigem.
 impressionante como havia labuta nessas realizaes: os moldes das gravuras eram entalhados em materiais como metal ou madeira com uma lmina de manejo difcil, o buril. Depois, a obra era impressa em papel ou pergaminho. Nenhuma chega aos 50 centmetros de comprimento. Mas tamanho, aqui, no  sintoma de inferioridade. Pode alcanar os 4 milhes de euros o seguro de um nico item do acervo  doado na ntegra ao Louvre pelo baro Edmond de Rothschild (1845-1934), da conhecida famlia de banqueiros europeus.
     O Renascimento alemo tem outros traos distintivos. Enquanto os artistas da Itlia perseguiam os padres clssicos de beleza, o pessoal do norte no se pautava to rigidamente por isso, diz o curador do Masp, Teixeira Coelho. Nas gravuras alems parece haver mais espao para o humor e para a representao de personagens de traos rudes  leia-se gente feia. Quem mais abusou disso foi o artista que dominou o pedao at a apario de Drer. Martin Schongauer retratou figuras orientais com algo de caricatural e fez uma Virgem Transtornada cujos seios quase saltam de um decote abusadssimo.
     Drer operou a sntese perfeita entre o esprito alemo e o equilbrio transcendente do Renascimento italiano. Para o filsofo Erasmo de Roterd, farol do pensamento humanista e amigo do artista, sua genialidade estava em expressar tudo  da luz s emoes  apenas com a tinta preta. Em Ado e Eva, a preciso anatmica dos personagens rivaliza com a das figuras de Michelangelo. Nos detalhes, contudo, ele inocula imperfeies:  flagrante, por exemplo, a gordurinha que sobra nos quadris de Eva. Os bichos presentes, como o bode que mostra seus chifres do lado das coxas dela, aludem  tradio gtica. A fixao zoolgica de Drer, alis, est bem representada na mostra. H uma leoa que ele observou em Anturpia, na atual Blgica, porto em que circulava grande quantidade de exotismos. Aquela que  sua gravura mais famosa, porm, se baseou na descrio de terceiros do primeiro rinoceronte levado  Europa. Na gravura, um tanto fantasiosa, a couraa do animal mais lembra uma armadura medieval. Ainda assim, permaneceu sendo a imagem de referncia dos rinocerontes por dois sculos. Ao ser enviado de Lisboa a Roma como presente do rei portugus ao papa, o bicho de verdade terminou morrendo num naufrgio. Mas a obra de Drer continua vivssima  e assombrosa. 


5. VEJA RECOMENDA

O BEM-AMADO (GLOBO MARCAS/SOM LIVRE)
 Vamos deixar os entretantos e partir para os finalmentes era o bordo que, em 1973, estava na boca dos milhes de espectadores que acompanhavam as peripcias e vigarices de Odorico Paraguau (Paulo Gracindo), prefeito da fictcia Sucupira. Criao de Dias Gomes (1922-1999) a partir de uma pea sua, esta foi a primeira novela em cores da TV brasileira. A histria  conhecida: sem nenhum defunto disponvel para cumprir sua nica promessa de campanha  inaugurar um cemitrio , o poltico apela para os servios de um matador de aluguel, Zeca Diabo (Lima Duarte). Apesar da produo modesta da poca e da narrativa mais lenta  editada em dez discos, com durao total de 36 horas , a stira mantm o vigor. Alm do rebuscado Odorico, h as solteironas irms Cajazeira, o atrapalhado Dirceu Borboleta, o jornalista de oposio Neco Pedreira e, sobretudo, o ex-malfeitor Zeca, que, para desespero do prefeito, se regenerou e  devoto do Padre Ccero. Um Brasil antigo, porm no desaparecido.

HABEMUS PAPAM (ITLIA/FRANA, 2011. VINNY)
  com pnico que o cardeal Melville (Michel Piccoli) reage  sua eleio como papa no conclave fictcio imaginado pelo diretor Nanni Moretti. No estou pronto e no quero, diz ele, desesperado, enquanto os outros cardeais suspiram aliviados por no terem sido eles os escolhidos. Seguem-se sesses emergenciais de terapia (Moretti faz o psicanalista) e, quando o medo aperta, uma fuga por Roma  dias durante os quais o Vaticano vive tambm ele aflies indescritveis, j que no pode apresentar ao rebanho o seu novo pastor. O tom, verdade,  de stira. Mas o assunto  srio e, sob a aparncia cmica, tratado com toda a devida seriedade por Moretti: como pode um homem que se sabe isso, homem e falvel, acreditar ser tambm ungido por Deus com convico suficiente para guiar outros pelos caminhos da f? Uma belssima questo, que o diretor deslinda ombro a ombro com o veterano Piccoli, na melhor atuao de sua carreira.

LIVRO
FICANDO LONGE DO FATO DE J ESTAR MEIO QUE LONGE DE TUDO, DE DAVID FOSTER WALLACE (TRADUO DE DANIEL GALERA E DANIEL PELIZZARI; COMPANHIA DAS LETRAS; 312 PGINAS; 44,50 REAIS)
 David Foster Wallace  o centro de um culto literrio nos Estados Unidos desde a publicao de Infinite Jest, um tour de force satrico de mais de 1000 pginas. O culto reforou-se com o suicdio do autor, em 2008, aos 46 anos. No Brasil, j se publicou Breves Entrevistas com Homens Hediondos, extraordinrio mas pouco lido volume de contos. Infinite Jest ainda est sendo traduzido (por Caetano Galindo, responsvel tambm pela mais recente verso em portugus de Ulysses, de James Joyce). Com seleo de textos do escritor Daniel Galera, a presente coletnea de no fico vale como um aperitivo para a obra mxima de Wallace. Dotado de um humor s vezes autodepreciativo e de um manancial aparentemente inesgotvel de referncias e aluses, o escritor dedica-se a temas to dspares como a literatura de Franz Kafka, as implicaes ticas do cozimento de uma lagosta, uma partida de tnis entre Roger Federer e Rafael Nadal, e o funcionamento de um cruzeiro martimo.

DISCO
BABEL, MUMFORD & SONS (UNIVERSAL)
 Na semana passada, os ingleses do Mumford & Sons fizeram histria ao colocar seis canes entre as 100 mais tocadas nos Estados Unidos. A ltima vez que isso havia acontecido com um artista britnico foi com os Beatles, em 1964. Babel, o segundo disco do Mumford & Sons (e de onde foram tiradas as seis msicas), tambm no fez por menos: debutou no primeiro lugar. O grupo tem muito mais caractersticas do country rock alternativo dos Estados Unidos (tambm conhecido por americana) do que da msica folk de sua terra natal. A faixa Whispers in the Dark, por exemplo, tem um banjo endiabrado, tocado por Winston Marshall. Em parte, essa sonoridade pode ser creditada ao produtor Markus Dravs, que trabalhou com o ingls Coldplay. a islandesa Bjrk e o canadense Arcade Fire. No entanto, seu trabalho seria infrutfero caso o Mumford & Sons no tivesse um repertrio to bem amarrado como o que apresenta em Babel. H desde msicas aceleradas para cantar e pular junto, como I Will Wait (o primeiro single do lbum), at produes mais ambiciosas, como Broken Crown  que tem um excelente arranjo orquestral.

CINEMA
OS INFRATORES (LAWLESS, ESTADOS UNIDOS, 2012. J EM CARTAZ NO PAS)
 Em dois longas anteriores  o western A Proposta e o ps-apocalptico A Estrada , o diretor australiano John Hillcoat mostrou-se capaz de gerar dramas de alta voltagem em cenrios de majestosa desolao. Agora, com a histria de trs irmos produtores de bebida alcolica no sul dos Estados Unidos, durante a Lei Seca, os cenrios ficaram mais intimistas, porm a tenso e a violncia confirmam sua habilidade em manejar tramas eminentemente masculinas, como o filme de gngster. Em 1931, os irmos Forrest (Tom Hardy, excelente), Howard (Jason Clark) e Jack Bondurant (Shia LaBeouf) veem sua empreitada ilegal prosperar. Mas tanto um chefo da mfia local (Gary Oldman) como um policial corrupto (Guy Pearce, em grande momento) esto de olho em uma gorda fatia dos lucros, no economizando vilania ou munio para atingir seus objetivos. Mais uma vez, Hillcoat conta com a colaborao do cantor Nick Cave, autor do roteiro (baseado num romance biogrfico de Matt Bondurant) e tambm da trilha sonora. A fotografia em spia evoca a atmosfera da poca e refora o clima sufocante da cidadezinha empoeirada.


6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA 
2. Cinquenta Tons Mais Escuros  E.L. James. INTRNSECA
3. A Dana dos Drages  George R.R. Martin. LEYA BRASIL 
4. A Guerra dos Tronos  George R.R. Martin. LEYA BRASIL 
5. Toda Sua  Sylvia Day. PARALELA 
6. Um Porto Seguro  Nicholas Sparks. NOVO CONCEITO 
7. Inverno no Mundo  Ken Follett. ARQUEIRO
8. O Festim dos Corvos  George R.R. Martin. LEYA BRASIL
9. A Fria dos Reis  George R.R. Martin. LEYA BRASIL
10.  A Tormenta de Espadas  George R.R. Martin. LEYA BRASIL 

NO FICO
1. Nada a Perder  Edir Macedo. PLANETA
2. A Queda  Diogo Mainardi. RECORD 
3. Carcereiros  Drauzio Varella. COMPANHIA DAS LETRAS
4. No H Dia Fcil  Mark Owen e Kenin Maurer. PARALELA 
5. O Pas dos Petralhas II  Reinaldo Azevedo. RECORD
6. One Direction  Danny White. BEST SELLER
7. Uma Breve Histria do Cristianismo  Geoffrey Blainey. FUNDAMENTO
8. Nunca Fui Santo  Marcos Reis e Mauro Beting. UNIVERSO DOS LIVROS 
9. O Livro de Psicologia  Nigel Benson. GLOBO
10. 30 Minutos e Pronto  Jamie Oliver. GLOBO

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Feridas da Alma  Padre Reginaldo Manzotti. AGIR 
2. Agapinho  gape para Crianas  Padre Marcelo Rossi. GLOBO 
3. Mentes Brilhantes  Alberto DellIsola. UNIVERSO DOS LIVROS 
4. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
5. Desperte o Milionrio que H em Voc  Carlos Wizard Martins. GENTE 
6. Eu No Consigo Emagrecer  Pierre Dukan. EDIOURO 
7. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE 
8. Mentes Geniais  Alberto DellIsola. UNIVERSO DOS LIVROS 
9. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE 
10. gape  Padre Marcelo Rossi. GLOBO


7. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO   SUSTENTVEL?
     E l vamos ns, outra vez. Tal qual na deposio de Fernando Collor, tal qual na denncia dos anes do Oramento, tal qual nas vitrias eleitorais de candidatos ou partidos nas quais se vislumbrava a vitria da tica e dos bons costumes, eis-nos embalados pela esperana de que agora vai, agora  para valer, o pas superou uma etapa e galgou um novo patamar civilizatrio. Nenhuma dvida de que o julgamento do mensalo representa uma virada de pgina. Jamais tantos e to notveis rus foram condenados. A questo  saber se o movimento iniciado pelo Supremo Tribunal Federal  sustentvel, para tomar emprestada uma palavra mais frequente no repertrio dos economistas e ambientalistas. Nesse ponto, o passado nos condena. Em seguida ao caso Collor imaginou-se que estava exorcizado o risco de algum tentar algo parecido. Da perspectiva de hoje, transparece que no poucos candidatos e partidos enxergaram ali um modelo de conquista e manuteno do poder muito til, desde que executado sem tanta ostentao e despreparo, alm de muito proveitoso para o patrimnio pessoal.
     A ministra Crmen Lcia, a admirvel campe dos votos curtos e da economia na erudio e na retrica, protagonizou um grande momento, na sesso da ltima tera-feira, ao insurgir-se contra a tese da defesa do ex-tesoureiro do PT Delbio Soares. A ministra lembrou que o advogado de Delbio, Arnaldo Malheiros, afirmara que o cliente no negava ter operado no caixa dois. E por que operara no caixa dois? Ora, acrescentou o advogado, porque a origem do dinheiro era ilcita. Crmen Lcia disse que nunca, em sua vida profissional, vira algum comparecer a um tribunal para confessar um crime, e sugerir que sua prtica  normal. O ilcito no  normal, continuou. Caixa dois  crime, caixa dois  uma agresso  sociedade brasileira. Fica parecendo que ilcito no Brasil pode ser praticado, confessado e que tudo bem. No est tudo bem.
     O mote da ministra pode ser aproveitado em outras situaes da vida brasileira, pblica e privada. No Brasil,  normal subornar o guarda de trnsito assim como  normal os profissionais liberais perguntarem se o cliente quer fazer o pagamento com recibo ou sem recibo (eles tambm praticam o caixa dois). Na vida pblica,  normal fatiar o ministrio entre escusos parceiros e mais normal ainda satisfazer com rendosas diretorias de estatais a cobia dos aliados. O julgamento do mensalo coincidiu com a campanha para as eleies municipais, e o que se viu na campanha? O PT em So Paulo aliou-se a um poltico que no pode pr o p para fora da ilha de sossego chamada Brasil porque, sendo procurado pela Interpol, em qualquer outro pas se arrisca a ser preso. Apresentaram-se como candidatos, pelo pas afora  como  normal  representantes de partidos que funcionam como estandes de venda de si mesmos. Nas negociaes para as alianas do segundo turno, no se discutem, e nem sequer se finge discutir, convergncias de programas. O que ocorre  como  normal  so transaes em torno de cargos e outras vantagens, algumas ilcitas, e tudo bem.
     O saldo maior do julgamento do Supremo Tribunal Federal  a defesa do estado democrtico de direito. Por no acreditar nele, o PT tentou revog-lo, ao revogar o Congresso pelo suborno. O projeto, como disse o presidente do tribunal, Carlos Ayres Britto, era de poder, no de governo, o que implicava uma trampolinagem nos constrangimentos impostos pelas instituies. A investigao que embasou o julgamento no foi longe o suficiente, no entanto, para rastrear o destino final dos muitos milhes de reais envolvidos no caso. Ficou nos lderes e presidentes de partidos que recebiam as quantias e no apurou a quem teriam sido redistribudas. No s muita gente ficou de fora, como no se fixaram as bases para requerer a devoluo do dinheiro. Como no  normal em episdios do gnero no Brasil, os rus foram condenados; mas, como  normal, o dinheiro escapou.
     O caminho aberto com as condenaes do mensalo ser sustentvel, entre muitas outras premissas, quando as condenaes inclurem a devoluo do dinheiro. Ou quando os partidos se empenharem em coligaes baseadas em programas e no em fisiologia. Ou ainda quando, em seguida a um episdio como este, elegermos um Congresso melhor. E ser, pobres de ns, no quando cada um desses fatores se impuserem isoladamente, mas quando todos ocorrerem simultaneamente. rduo  o percurso que ainda temos pela frente.


